A obra de émile zola no brasil O percurso: do Brasil a Zola

 

Eduardo César Ferreira da Silva - UFSC/UNISUL

 

O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem de seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.

Machado de Assis

 

1. Aspectos da imprensa brasileira no final do XIX

 

Importantes transformações ocorreram na vida sócio-político-econômico-cultural brasileira nas últimas décadas do Século XIX, entre elas o fim da escravidão, o advento da República, o conflito entre o Estado e a Igreja, a influência do positivismo nos meios militares, a consolidação da tendência de desenvolvimento do centro-sul em detrimento do nordeste, a ascensão do café em São Paulo atraindo cada vez mais imigrantes, o ciclo da borracha no norte, entre outras. Contudo, o Brasil continuava a ser um país essencialmente agrícola.

Uma importante característica cultural desse final de século era o gosto pelo teatro. Os principais romancistas também escreviam para teatro, e vários romances de sucesso foram rapidamente adaptados para o palco.

Em 1878, o Rio de Janeiro contava aproximadamente, com 300 mil habitantes, e o censo de 1872 apontava um índice de analfabetismo de aproximadamente 80%. Outro dado relevante é que apenas 17% da população entre 6 e 15 anos freqüentava escola. Em todo o Brasil contava-se 12 mil alunos matriculados em colégios secundários e calculava-se em 8 mil o número de alunos e de pessoas com educação superior. O Brasil tinha nessa época em torno de 10 milhões de habitantes.[1]

Os leitores de crítica literária publicada na imprensa atual, acostumados aos cadernos de cultura dos grandes jornais (como o Mais! da Folha de São Paulo, ou o Caderno Dois de O Estado de São Paulo), provavelmente desconhecem a estrutura dos jornais do século XIX.

Naquela época os jornais não tinham a diagramação nem o número de páginas que hoje conhecemos. Os jornais da segunda metade do século XIX, em geral, tinham apenas quatro páginas; alguns chegaram no final do século a oito ou pouco mais. Eram compostos de sete ou oito colunas de escrita densa e somente no final do século é que apareceram pequenas gravuras.

Não havia cadernos diários de cultura, “os cadernos” são um fenômeno recente no jornalismo brasileiro. Havia esporadicamente suplementos literários. Como eram editados esses jornais? Qual era, então, o espaço destinado à crítica literária e qual era sua localização em relação aos outros assuntos que eram noticiados?

Na Gazeta de Noticias, por exemplo, a primeira página dividia-se em sete colunas. Um traço horizontal separava o pé da página do restante. Neste pé de página, chamado de Folhetim, eram publicadas diversas colunas semanais como as Cartas Portuguezas, de Ramalho Ortigão, as Chronicas, as Carta de Pariz, de Guilherme de Azevedo,os romances folhetim e às vezes contos ou novelas. Era um espaço considerado nobre e tradicionalmente dedicado às artes, onde predominavam a crítica teatral, a literatura e a crítica literária. Certos artigos eram diagramados em alguma coluna central ou em outra página.

Um espaço eventualmente destinado à literatura era o canto superior direito, onde foram encontradas boa parte das críticas a Zola ou dos artigos sobre o naturalismo. Foi também local do Correio de França, do corrrespondente em Paris, Mariano Pina.

A título de curiosidade: a Gazeta de Noticias dizia circular com 24 mil exemplares em 1888 passando para 40 mil na década de 90. São números duvidosos, pois o Figaro,em 1879, circulava com 80 mil exemplares e o Voltaire com 10 mil, em Paris, onde havia certamente um público leitor maior que no Rio de Janeiro.

Só nas três últimas décadas do século XIX é que surge no Brasil uma crítica literária especializada. Conhecida como a geração de 70, suas origens remontam à criação dos primeiros cursos universitários brasileiros. Quando a crítica tratava de um livro em particular era corrente apresentar um resumo do enredo. Fenômeno semelhante ao que ocorria na França, muitos dos escritores que se ocupavam da crítica escondiam-se atrás de pseudônimos. Foi o caso de Machado de Assis que assinou suas críticas a O Primo Basílio como Eleazar.

 

1.2. As intermediações francesa e portuguesa

           

A primeira pergunta que nos colocamos quando trabalhamos com recepção crítica[2], mais expecificamente com recepção de um autor estrangeiro por uma outra literatura, é como a obra, a produção literária, chegou aos leitores[3] do país receptor. Quais os caminhos físicos percorridos pelo texto impresso até os leitores ‘estrangeiros’, por que meios tomou-se conhecimento de sua existência. No nosso caso, cabe-nos perguntar: como a existência da obra de Zola chegou ao conhecimento dos leitores brasileiros?

Geralmente a figura do intermediário[4] (do crítico, dos viajantes) tem papel preponderante na divulgação de uma literatura ou de um autor estrangeiro. Outro fator importante é o sucesso desse escritor no seu país de origem – pela repercussão de um prêmio que lhe tenha sido atribuído ou ainda por motivos sócio-políticos ou econômicos, por exemplo – despertando assim o interesse da crítica internacional.

No caso da divulgação da obra de Zola para o público brasileiro, pelo menos no início, ela ocorreu sem a presença de críticos[5] como mediadores. Ou seja, Zola chegou aqui por seus próprios escritos, publicados em jornais franceses, e lidos correntemente nas principais cidades. Entre eles podemos citar Le Figaro, que segundo a Bibliographie de la critique sur Émile Zola organizada por David Baguley[6] foi o segundo jornal a publicar um artigo de crítica a um livro de Zola, Contes à Ninon, em 1864.

Além dos textos publicados nos jornais brasileiros foram também intermediários importantes entre a obra de Zola e os leitores brasileiros aqueles publicados pela imprensa francesa e pela portuguesa. No caso da imprensa portuguesa e da brasileira tivemos às vezes os mesmos mediadores (Mariano Pina, por exemplo). No que se refere à produção francesa, encontramos escritos do próprio Zola (críticas, resenhas, jornalismo, seus romances publicados em folhetim[7]) e textos da crítica literária francesa sobre sua produção romanesca. Várias dessas críticas foram estopim de polêmicas que acabaram contribuindo para a divulgação da obra. Às vezes a própria redação do jornal e até o próprio autor escreviam artigos justamente para provocar discussões que serviam como artifício publicitário.

Há, portanto, fortes evidências de que, mesmo antes de começar a publicar os Rougon-Macquart, Zola já fosse lido no Brasil, nos jornais e revistas francesas que aqui chegavam.

A primeira novela de Zola publicada em periódico de grande circulação que chegava ao Brasil foi Les Veuves, em 24 de setembro de 1865, no Figaro. Alguns dias depois, o mesmo jornal publicava uma outra novela: Une leçon.

Apesar do grande volume de crônicas, contos, novelas e resenhas assinados por Zola e publicados por jornais que sabemos terem sido lidos por brasileiros no terço final do século XIX, foi como crítico e romancista que Zola tornou-se assunto na imprensa brasileira.

Foram os jornais e revistas portugueses um outro possível caminho para a chegada e divulgação, no Brasil, do nome de Zola. Mariano Pina em sua revista Ilustração Portuguesa foi importante mediador porque também foi correspondente para a Gazeta de Noticias, do Rio de Janeiro, onde assinava a seção “Correio de França”.

Infelizmente, mesmo a excelente bibliografia organizada por Baguley sobre a crítica zoliana apresenta poucas informações sobre os textos publicados no Brasil, apesar de o autor fazer parte da equipe do Centre Zola, vinculado ao Departamento de Manuscritos da Biblioteca Nacional de Paris, que conta com pesquisadores brasileiros e portugueses entre seus colaboradores.

Um dos poucos trabalhos sobre a circulação da obra de Zola, tanto no Brasil como em Portugal, é a tese de doutorado do português Pedro Calheiros[8], defendida na Universidade de Paris III - Sorbonne Nouvelle, em 1990. Trata-se de uma volumosa tese, de acordo com a antiga tradição francesa das teses de Doctorat d’état. Composta de cinco volumes perfaz um total de mais de 1500 páginas e tem como objetivo principal fazer uma leitura psicanalítica intertextual de possíveis similaridades entre um romance do primeiro Zola, Madelaine Férat, publicado em 1867, e Dom Casmurro. O grande valor dessa tese é que, para mostrar que possívelmente Machado de Assis teria lido Madelaine Ferrat, Calheiros aponta os caminhos que este texto poderia ter percorrido até sua chegada aos olhos do escritor brasileiro.

Calheiros assinala que ainda resta por fazer um estudo sistemático de recuperação dos textos de Zola publicados em jornais e revistas portuguesas do século XIX. Estudo esse que seria de vital importância para uma análise mais completa da recepção crítica de Zola no Brasil, pois, conforme já dissemos, tanto quanto os periódicos franceses, os portugueses também circulavam no Brasil daquele final de século. Devo a Pedro Calheiros os dados – que serão apresentados no final deste texto – sobre as traduções de Zola no século XIX em Portugal. Por exemplo, o primeiro volume dos Rougon-Macquart, La Fortune des Rougon, que fora publicado em 1871, só foi traduzido para o português dez anos depois.

O atraso entre a publicação da edição original francesa e a tradução diminuiu com o tempo, até que Germinal foi publicado em folhetim em português, em 1884, simultaneamente com a sua publicação, no Gil Blas, na França. De início, pela revista Illustração Portuguesa e pelo Correio da Noite de Lisboa. Sendo que a revista obteve a exclusividade para a publicação a partir de 29 de novembro de 1884. Mas o Correio da Noite publica o último capítulo, em 24 de fevereiro de 1885, um dia antes da publicação francesa. Também outros volumes do mesmo ciclo: Au Bonheur des Dames (1883) e L'Oeuvre (1886) foram traduzidos e publicados em Portugal no mesmo ano de sua publicação na França. Encontramos evidências de que foram colocados à venda no Rio de Janeiro pelos anúncios das livrarias escontrados pela pesquisa.

 

1.3. O autor: nulladies sine linea

 

Em literatura Zola, celebrizou-se como o ‘chefe da escola naturalista’, como o autor de Germinal, de Nana, de L’Assommoir e também pela participação decisiva no Caso Dreyfus. Ainda assim, considerá-lo apenas por esses atributos seria reduzir a grandiosidade e a diversidade de sua obra. Achamos necessária uma rápida apresentação de Zola para que possamos entender melhor porque ele é considerado o ‘pai do naturalismo’.

            Seria esta paternidade ou chefia suficiente como apresentação? Ou suficiente para justificar este trabalho? Não creio. Pois a obra de Zola não se resume a Germinal, Nana, L’Assommoir, La Faute de L’abbé Mouret ou a J’accuse. Ele foi também jornalista, crítico literário, crítico de arte, cronista, escreveu para teatro e além do mais escreveu poesias (nesse ponto sua obra e a de Machado de Assis equiparam-se, mestres da prosa, poetas medíocres). Entretanto, não é o caso de reescrever um resumo de sua(s) biografia(s), seria apenas mais uma entre tantas.[9] Mas algumas observações tornam-se pertinentes.

            Mais conhecido por seu sobrenome, Zola, ou por Émile Zola, Émile-Édouard-Charles-Antoine Zola nasceu em 1840, em Paris, e faleceu na mesma cidade em 1902. Muito cedo perdeu o pai, o que o levou a uma juventude cheia de privações, tendo enfrentado grandes dificuldades financeiras.

Nem sempre a literatura o coroou: foi reprovado justamente em literatura no Baccalauréat (exame prestado no final do ensino médio, na França, utilizado também para acesso às universidades), isto é, foi julgado inapto em literatura. No entanto, Zola fez da pena seu cavalo de batalha. A compulsão pela escrita fica clara pela inscrição encontrada no frontal da lareira de sua casa, em Medan, nulla dies sine linea (nenhum dia sem uma linha), que era também o lema de Balzac. Mas tal compulsão manifesta-se na volumosa produção pois Zola publicou romances, compilações de crítica literária ou de arte, diversas crônicas em diferentes jornais, contos e novelas, poemas, poemas líricos e peças de teatro. Tais obras estão relacionadas no final deste capítulo.

Seu mais famoso ciclo de romances, Les Rougon-Macquart, composto de 20 volumes, foi publicado entre 1870 e 1893. Fazem parte desse ciclo os romances que lhe trouxeram fama e dinheiro, como é o caso de L’Assommoir, Nana, Germinal, e La Débacle. O ciclo tem como subtítulo Histoire Naturelle et Sociale d’une Famille sous le Second Empire e é nele que se manifesta toda a influência dos estudos sobre a hereditariedade do Dr. Lucas. Zola procurou demonstrar que os fatores genéticos podem determinar o caráter das pessoas. Ao longo do ciclo, personagens de uma única família com dois ramos distintos são colocadas em diferentes ambientes. A origem dessa família está em uma mulher, la tante Dide, cujos filhos, resultantes de sua relação com dois homens com características físicas e psicológicas bem diferentes, passam a revelar com o tempo essa ascendência diversa.

Ao longo do ciclo, Zola colocou suas personagens em diversos meios sociais: em La Fortune des Rougons os camponeses enriquecidos se transformam em burguesia urbana; La Faute de l’abbé Mouret retratou o baixo clero; L’Assommoir, os trabalhadores urbanos; Une page d’amour, a burguesia; Nana, o universo da prostituição; Germinal, os mineiros etc.

No entanto, pode-se dizer que houve uma ‘evolução’ do autor ao longo dos Rougon-Macquart. Em seu último volume, Le Docteur Pascal, abre-se uma possibilidade para que o homem possa fugir ao determinismo. No entanto o ciclo não é monolítico, há volumes mais independentes, como L’Assommoir, Nana, Germinal e La Débacle.

Zola publicou ainda dois outros ciclos de romances nos quais desaparecem as características marcantes do naturalismo. Uma evidência de que o prestígio de Zola não estava ligado exclusivamente às marcas naturalistas foi o sucesso de Lourdes, primeiro volume de Trois villes, recordista de vendas no momento do lançamento. Os outros volumes dessa série são Rome e Paris.

Apenas três dos quatro volumes previstos do último ciclo, Quatre évangiles,foram publicados, Fécondité, Travail e Vérité, o último com edição póstuma. Do quarto volume previsto, Justice, conhece-se somente as notas preparatórias.

Críticos de Zola divide sua obra romanesca em três: o primeiro Zola (1865 a 1871) período em que publicou seus primeiros contos e romances; o Zola dos Rougon-Macquart (1872-1893); e o terceiro Zola (1894-1902) quando publicou seus outros dois ciclos Trois villes e Quatre évangiles.

Quanto à recepção de sua obra na França, conta Henri Mitterand que:

 

La réception critique de l’œuvre romanesque de Zola a connu divers avatars. Cette œuvre n’a pas cessé d’être lue, dans tous les publics – ceux qu’il est convenu d’appeler populaires, comme en témoigne de nos jours le succès des principaux romans dans les collections de poche, et ceux qu’il est convenu d’appeler lettrés.[10]

 

A atualidade da obra de Zola é ainda comprovada pela rica bibliografia citada por Mitterand que em sua quase totalidade foi publicada nas décadas de 70 e 80 do século XX. Mais abrangente do que a de Mitterand, a coletânea da bibliografia crítica selecionada por Collete Becker[11], publicada em 1993, guarda a mesma característica.

Enfim, entre outras coisas, Zola foi alguém dotado de um sentimento íntimo que o tornou um homem do seu tempo e do seu país, mesmo quando tratou de assuntos remotos no tempo e no espaço. Ou seja, encontramos em Émile-Édouard-Charles-Antoine Zola todos os atributos exigidos por Machado de Assis de um escritor digno de seu nome.

 

1.5. Primeiras traduções da obra de Zola para o português[12]

 

Contes à Ninon (1864) - parcial

-         O Fuzilado, tradução de Beldemónio [Eduardo de Barros Lobo], Lisboa: 1877.

Thérèze Raquin (1867)

No anúncio datado de fevereiro de 1884, de uma livraria não identificada, dentre os livros anunciados como leitura para homens, encontramos Thereza Raquin.

            Também encontrado no anúncio da Livraria do Povo de 21 de agosto de1893 sob o título de Thereza Raquin e uma pagina de amor.(sic)

 

Madelaine Férat(1868)

-         Magdalena Férat, tradução de Luiz Cardoso, Lisboa, Livraria Pereira Editor, 1898.

La Fortune des Rougons (1871)

-         A Fortuna dos Rougons, Lisboa: Livraria Industrial, 1881.

-         A Fortuna dos Rougons, tradução de Barros Lobo, Lisboa: Liv. Industrial, 1882.

-         A Fortuna dos Rougons, 2a edição, tradução de Barros Lobo, Lisboa: Liv. Industrial, 1882.

La Curée(1872)

-         O Rega-Bofe, prefácio do autor, tradução de Pedro dos Reis, Lisboa: Typographia das Horas Românticas, 1877. (Coll. “Bibliotheca para Homens”)

-         O Regabofe, tradução de Pedro dos Reis, Lisboa: Typographia de David Corazzi, 1877, 2 vol..

-         O Regabofe, tradução de Manuel A. Rodrigues, Lisboa: 1877, 2 vol.

-         O Regabofe, Ernesto Chardron, Porto: 1883, 2 vol.

Le Ventre de Paris (1873)

No anúncio datado de fevereiro de 1884, de uma livraria não identificada, dentre os livros anunciados como leitura para homens, encontramos O Ventre de Pariz.

La Faute de l’abée Mouret (1875)

            No anúncio da Livraria do Povo de 21 de agosto de 1893 encontramos dentre os livros de Zola O Crime do padre Mouret.

Son Excellence Eugène Rougon (1876)

-         O Sr. Ministro, tradução de Barros Lobo, Lisboa: Livraria Industrial, 1882.

-         O Sr. Ministro, tradução de Barros Lobo, Lisboa: Livraria Industrial, 1888.

L’Assommoir(1877)

-         A Taberna, prefácio do autor, Lisboa: Guimarães & Ca., s.d., [dépôt légal, 1944] (a existência de um prefácio do autor pode denotar que houve uma edição no século XIX)

-         O Matadouro ou a historia da lavadeira Gervasia, Anúncio da Livraria do Povo, Rio de Janeiro, 21 de agosto de 1893. Não relacionado por Calheiros.

Une Page d’amour(1878)

            No anúncio datado de fevereiro de 1884, de uma livraria não identificada, dentre os livros anunciados como leitura para homens, encontramos Uma Pagina de amor.

 

Nana(1880)

Uma nota na Gazeta de Noticias de 22 de março de 1880 sinaliza que a tradução de Nana estava prestes a ser lançada e o tradutor usava o pseudônimo de Bazilio de Brito.

No anúncio datado de fevereiro de 1884, de uma livraria não identificada, dentre os livros anunciados como leitura para homens, encontramos Nana. Outro livro atribuido também a Zola anunciado é A filha de Nana (sic).

 

Le Capitaine Bourle (1882)

            No anúncio datado de fevereiro de 1884, de uma livraria não identificada, dentre os livros anunciados como leitura para homens, encontramos O Capitão Burle.

 

Au Bonheur de dames(1883)

-         O Romance da Moda, tradução d’Eduardo Barros Lobo, Lisboa: Empresa Literária Luso-Brasileira, 1883

Germinal(1885)

-         Na Illustração Universal, de Lisboa, com exclusividade a partir de 29 novembro 1884.

-         no Correio da Noite, de Lisboa, o primeiro capítulo dia 26 novembro de 1884 mesmo dia que o Gil Blas – o último, um dia antes, 24 fevereiro de 1885, do final da publicação integral no Gil Blas.

-         Germinal, tradução de Bedemónio (pseudonyme d’ Eduardo Barros Lobo), Lisboa: Empresa Literária Luso-Brasileira, 1885.

 

L’Oeuvre(1886)

-         A Obra, tradução de Manoel M. Rodrigues, s.l., s.e., s.d., Typographia Occidental, Porto, 1886)

Le Rêve (1888)

-         O Sonho, tradução de José Sarmento, Lisboa: Livraria Antonio Maria Pereira, 1897.

Le Docteur Pascal(1893)

-         O Doutor Pascal, tradução C. de Albuquerque, Rio de Janeiro: Magalhães e Cia. editores, segundo milheiro, 1893.

Lourdes (1894)

-         Lourdes, tradução de Ruy Xavier, Lisboa: Jose Bastos, 1894.

Rome (1896)

-         Roma, tradução de C. Castro Soromenho, Paris: Guilard, 1896

Paris (1898)

- em folhetim no Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, a partir de 20 de março de 1898.

 

Na década de 1880, a Livraria América de Pelotas, Rio Grande do Sul, lançou a série “Biblioteca Econômica”, em formato de bolso e a preço reduzido, e incluia Zola entre os autores traduzidos.[13]



[1] BorisFAUSTO. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 1996.

[2] Entendemos a expressão recepção crítica segundo a definição que lhe é dada pela Estética da Recepção. Os príncipios fundamentais da escola foram apresentados por Hans R. Jauss, em 1967, na Universidade de Constança, na Alemanha. É importante ter em conta que o termo recepção, em alemão, possui uma conotação que não existe em português: a de “apropriar-se”. Propõe Jauss que o texto literário seja analisado por um ângulo que foi durante muito tempo negligenciado pela história da literatura – o do leitor, no caso o crítico literário. Para a Estética da Recepção, a verdadeira história literária é a história das leituras de uma obra através do tempo, sendo que o leitor é o responsável pela permanência, ou não, da obra, no sistema literário.

Jauss recorre a conceitos da hermenêutica de Gadamer, adequando-os, com o objetivo de determinar as relações entre o texto e a leitura que dele é feita. Temos assim a incorporação da noção de “horizonte de expectativa”, que indica o sistema de normas e atitudes que caracterizam um leitor ou um público num momento histórico preciso. O “horizonte de expectativa” poder ser considerado sob dois aspectos: o do público e o da obra. Da análise e da comparação destes, podemos identificar a “distância estética”, que em outras palavras pode ser definida como o intervalo entre uma criação artística e os códigos vigentes. Na medida em que aumenta essa distância aumentam a originalidade e o valor da obra, diminuindo assim a possibilidade de incompreensão e de aceitação.

[3] Segundo Yves Chevrel existem três tipos de leitor. Primeiro o leitor no texto, o leitor ficcional, parte do universo fictício do autor. O segundo é o leitor implícito, alvo de diversos estudos recentes, uma estrutura inscrita no texto. O último é o leitor real (ou empírico, histórico, contemporâneo), aquele que efetivamente leu o texto e cujas reações são observáveis. Podemos sub-categorizar esse em: (1) leitor criador (re)criador, escritor; (2) o leitor que reflete sobre a obra, o crítico; e por último, e o mais importante de todos, aquele que efetivamente comprou e leu os livros. Ele não deixa traços de sua leitura mas deixa a marca de sua escolha, de suas preferências. É a “foule obscure” a que se refere o crítico françês Gustave Lanson que é negligenciada pela história da literatura mas que movimenta todo um mercado editorial.

[4] Intermediário ou mediador são todos aqueles que favorecem as trocas literárias internacionais, sendo que estas trocas apresentam dois lados: o da “produção” (a criação literária); o do “consumo” (o público, ativo ou passivo). Os intermediários podem ser de dois tipos: agentes (pessoas e ambientes humanos) ou instrumentos (obras literárias e artísticas, jornais, revistas). Como exemplos de intermediários temos: os viajantes, estudantes no estrangeiro, as bibliotecas e gabinetes de leitura, os salões literários, a tradução e os tradutores, os críticos literários. Segundo P. Brunel, C. PICHOIS e A.-M. Rousseau. Qu’est-ce que la littérature compareé?Paris: Armand Colin, 1983, p. 42.51, foi Paul Van Tieghem quem primeiro definiu o intermediário. Modernamente tem-se empregado o termo mediador por englobar as condições das tranferências culturais segundo Yves CHEVREL. In: Théories de la réception: perspectives comparatistes. Dégres, Paris, n. 34-40, 1989, p.50-56.

[5] Para a Estética da Recepção o crítico tem um papel que não pode ser negligenciado na definição do horizonte de expectativa do leitor, pois ele é ao mesmo tempo responsável e resultante do processo de formação do sistema de valor de um texto, uma vez que ele é, antes de mais nada, um leitor. O texto crítico, por estabelecer uma ponte entre o texto e o leitor, tem sido tratado como aquele que melhor serve para a identificação do horizonte de expectativa de uma época. E é justamente nas críticas publicadas nos jornais e nas revistas que se apresentam, de maneira clara e às vezes obscura, as expectativas de um determinado momento. Podemos assim, identificar claramente, através dos textos críticos de jornais e revistas, o horizonte de expectativas. Esses textos são a expressão mais expontânea das convenções da época.

[6] David BAGULEY. Bibliographie de la critique sur Émile Zola. Toronto: Univ. of Toronto Press, 1976, Tomo I.

[7] Exceto para Les Mystères de Marseille o termo Folhetim, em Zola, não tem o sentido tradicional de romance escrito e publicado au jour le jour. Zola só iniciava a publicação, em folhetim, após o término do romance. Podemos perceber na estrutura interna destes romances uma subdivisão, previamente estabelecida, que favorecia a publicação folhetinesca.

[8]Pedro Manuel Ferreira CALHEIROS. Du naturalisme au symbolisme: Madelaine Ferat de Zola et Dom Casmurro de Machado de Assis. Interferences et lectures critiques, Thèse de Doctorat d’Etat en Litterature comparéé, Paris, Paris III Sorbonne Nouvelle, 1990.

[9] A primeira biografia foi publicada ainda no Século XIX, em 1882, por Paul Alexis, com o título Émile Zola Notes d’un ami. Entre as mais recentes destacamos a do romancista e biógrafo Henry Troyat publicada na França em 1992.

[10] Henri MITTERAND. Zola et le naturalisme. Paris: PUF, 1982.

[11] Collete BECKER. Émile Zola. Paris: Hachette, 1993.

[12] O que aqui apresentamos é uma seleção das traduções de Zola para o português elaborada por Pedro Calheiros como um dos anexos de sua tese de doutorado op.cit.. Relacionamos apenas as do século XIX das quais encontramos referência explícita da data de publicação. Acrescentamos também, aquelas cujas evidências foram encontradas por esta pesquisa.

[13] Laurence HALLEWELL. O livro no Brasil. São Paulo: EDUSP, 1985.